O ano era 1894, um navio de imigrantes chegava na costa brasileira e, dentro dele, vinha o inglês Charles Miler junto com uma bola e um conjunto de regras que logo se popularizaram e viraram o maior esporte do país. Assim nasceu o futebol em território nacional, com mais de 15 milhões de praticantes regulares, 5 vitórias em Copas do Mundo e a capacidade de movimentar 50 bilhões de reais por ano. Não à toa, o resto do mundo conhece o Brasil como “país do futebol”.
Alguns dos melhores jogadores do mundo são brasileiros, assim como as torcidas mais emocionadas e o maior sentimento de ufanismo associado ao campo e a bola. Em território nacional, jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo é ponto facultativo, o amor pelo time do peito é motivo de brigas que vão parar na delegacia, o salário dos jogadores gera debates políticos e a torcida faz os estádios - literalmente - tremerem.
Para o brasileiro, futebol não é apenas um esporte, mas sim uma expressão cultural, econômica e social. Mesmo quem não gosta termina acompanhando porque faz parte dos laços familiares, das conversas no trabalho, das notícias, dos tópicos mais comentados em redes sociais brasileiras, de decisões políticas e de movimentos sociais.
Para os futebolistas, se destacar no esporte significa ser reconhecido como ícone nacional. É uma profissão que vem com benefícios consideráveis: um dos maiores salários possíveis no país, fama, conhecer outros famosos e viagens pelo mundo. Uma vida que ⅓ dos jovens do país sonham em ter.
Contudo, a prática também tem suas responsabilidades. Todo o amor que os brasileiros sentem se transforma em uma cobrança muito grande sobre os jogadores. Para arcar com a responsabilidade de atender as expectativas de milhões de pessoas é preciso um ótimo desempenho em campo e, consequentemente, um enorme esforço físico que - por sua vez - pode desencadear lesões físicas severas.
Lesões no futebol: momentos que fazem as torcidas pararem de respirar
Quando, no meio de um jogo emocionante, um jogador vai ao chão e não se levanta, em geral as torcidas ficam em silêncio, na expectativa. Ninguém sabe o que vai acontecer: para a torcida, o jogador favorito pode ficar de fora da temporada, para o jogador, pode ser o fim precoce de uma carreira promissora. Um passe que deu errado, um movimento arriscado, um pisão de mal jeito, qualquer cenário pode significar um osso quebrado, um tendão rompido ou uma vértebra fraturada, de toda forma, uma longa recuperação e a incerteza do futuro.
Em 2014, por exemplo, na Copa do Mundo que desencadeou um dos piores momentos da história do Brasil - tanto no futebol, quanto na política - Neymar Jr., então principal nome da seleção nacional, levou uma joelhada nas costas que lesionou a vértebra L3. O machucado o deixou de fora do próximo jogo e, para a vergonha nacional, o Brasil perdeu de 7x1 para a Alemanha. Nos anos 2000, um jogo inteiro foi abalado quando Ronaldo Fenômeno rompeu o tendão patelar e saiu do campo em uma maca. Antes disso, em 1985, Zico foi chutado e sofreu diversas lesões.
Podem parecer casos pontuais, mas só em 2023 a Série A do Campeonato Brasileiro registrou 741 ocorrências - uma média de 33 jogadores feridos por time de futebol. Em cada uma dessas histórias, há duas grandes preocupações: evitar que a lesão se desenvolva em danos permanentes - e, consequentemente, salvar a carreira do profissional - e garantir uma recuperação rápida, para que o esportista volte o quanto antes aos jogos.
Para dar conta dessa tarefa, os times - e, em alguns casos, os próprios jogadores - tem uma equipe de profissionais da saúde aptos a promover um tratamento efetivo e seguro. Nessa empreitada, o fisioterapeuta especialista em lesões esportivas é figura central.
O papel do fisioterapeuta esportivo no futebol profissional: glórias e responsabilidades.
Prevenir e remediar, essas são as principais funções de um fisioterapeuta dentro do futebol profissional. Seja contratado pela administração do time para cuidar de todos os jogadores ou por um atleta para cuidar de sua carreira especificamente, o profissional da fisioterapia desenvolve estratégias para fortalecer músculos e diminuir a probabilidade de lesões ou, no pior dos cenários, para acelerar a recuperação do organismo, preparar para o retorno ao esporte e salvar carreiras.
Para cumprir essa função, eles acompanham os atletas em treinos e jogos, promovendo exercícios preparatórios, entrando com os primeiros cuidados no caso de uma lesão e ajudando o corpo a voltar ao equilíbrio após uma atividade física. Seu repertório de habilidades deve englobar técnicas como massagens, crioterapia, imersão em gelo e técnicas de liberação miofacial, tudo para controlar fadigas e sobrecargas musculares que possam resultar em lesões.
E não só de técnicas é feita essa prática. A tecnologia é uma grande aliada do fisioterapeuta esportivo no futebol. A administração dos times quer que seus atletas estejam nas melhores formas possíveis e, para isso, investem em recursos médicos como laboratórios de biomecânica - como o R9 do Corinthians, que foi o primeiro clube do Brasil a montar um espaço próprio para analisar o movimento dos atletas - equipamentos de termografia e câmaras hiperbáricas - que estão cada vez mais comuns desde 2021, quando o Flamengo introduziu o equipamento em seu arsenal de preparação física.
Vale ressaltar que o preparo físico muscular não é a única preocupação de um fisioterapeuta. O profissional da área - principalmente no futebol, que envolve viagens internacionais cansativas e mudanças bruscas de clima e altitude - também tem que se envolver na adaptação do corpo aos novos ambientes. Dessa forma, contribuindo para que os jogadores tenham o melhor desempenho em qualquer situação.
O trabalho é detalhista e requer muito conhecimento e atualização por parte desses profissionais, contudo também entrega uma alta valorização. Em uma reportagem sobre o perfil de fisioterapeutas que trabalham com futebol e voleibol no Brasil, a Revista Brasileira de Fisioterapia revelou que 78,2% dos entrevistados se especializou em esportes, 80% passava 8h por dia se dedicando totalmente ao trabalho com atletas e 58,2% recebiam mais de 7 salários mínimos.
Seguindo essa rotina, os fisioterapeutas especialistas em esporte que buscam trabalhar no futebol estão sempre com os jogadores. Fazem parte da comitiva técnicas em Copas do Mundo, jogos internacionais e grandes eventos esportivos, e, de modo geral, fazem parte da rotina dentro e fora do campo. Em muitos casos, são os heróis por trás dos heróis, lutando para que os times e torcidas do Brasil e do mundo tenham de volta em campo seus melhores jogadores e, em alguns casos, ficando famosos pelos resultados obtidos.
4 casos em que o fisioterepaura esportivo salvou a carreira de um jogador de futebol
1. Nilton Petrone (Filé) e Ronaldo Fenômeno
Nilton Petroni Vilardi Júnior, o Filé, é o pioneiro da fisioterapia esportiva e também o responsável pela fama da modalidade no Brasil. Ao longo de sua longa carreira, ele acumulou cases de sucesso nos principais times do país e hoje é um profissional renomado.
Contudo, seu caso mais famoso aconteceu entre 2000 e 2002, antes da Copa do Mundo disputada no Japão e na Coréia do Sul. Na época, Ronaldo Nazário, o "Fenômeno", sofreu duas lesões seguidas no mecanismo extensor do joelho, e com o que se sabia da fisioterapia na época, o julgamento comum foi de que dificilmente ele voltaria a jogar em Alto Nível. Para os profissionais do início do século XXI, a fisioterapia só poderia ser iniciada meses depois da cirurgia que o atleta precisou fazer, mas o desespero para voltar ao campo e recuperar a carreira levou Nilton a tomar uma atitude diferente: começar a recuperação ainda no hospital.
Foram 10 meses de fisioterapia - entre abril de 2000 e fevereiro de 2001 - até Ronaldo fazer sua primeira aparição pública com uma bola no especial do Criança Esperança, e 12 meses até voltar a jogar profissionalmente no Campeonato Italiano. Entre lesões musculares normais para quem havia ficado parado por tanto tempo, foram mais 4 meses de recuperação e em 2002, Ronaldo foi para a copa do mundo já como um atleta de Alto Nível e foi fundamental na conquista do título brasileiro de pentacampeão.
2. Juanjo Brau e Lionel Messi
Juanjo Brau era fisioterapeuta do FC Barcelona há 5 anos quando Lionel Messi foi contratado pelo clube. A partir de então, Brau trabalhou diretamente com o jogador para melhorar sua condição física, tratar lesões musculares regulares pelas quais o atleta passava e prevenir novas ocorrências.
Foram 25 anos de trabalho em conjunto para aprimorar a performance de Messi. A principal preocupação do fisioterapeuta foi construir uma rotina de treinos adequada para o atleta, controlando a fadiga muscular e ajustando o impacto dos exercícios para evitar sobrecarga. Essa estratégia foi complementada com exercícios de flexibilidade.
Algumas abordagens utilizadas ao longo desse período foram: análise biomecânica - para identificar os padrões de movimento que o deixavam mais vulnerável a lesões - treinamento funcional específico - que simulavam movimentos para fortalecer os grupos musculares mais usados durante as partidas - e tecnologias avançadas em fisioterapia - com o objetivo de monitorar as respostas fisiológicas do jogador aos programas de preparação e reabilitação.
3. António Gaspar e Cristiano Ronaldo
António Gaspar é um fisioterapeuta português com mais de 30 anos de carreira sendo referência no campo esportivo. Quando ele completou 8 anos como médico e fisioterapeuta da Seleção Portuguesa de futebol, Cristiano Ronaldo - então jogador do Manchester United - sofreu uma lesão significativa no tornozelo direito e precisou de cirurgia.
A operação manteve o jogador longe dos campos por cerca de quatro meses - entre julho e outubro de 2008, período no qual foi acompanhado diretamente pelo fisioterapeuta e manteve um ritmo de recuperação melhor do que o esperado. Os treinamentos físicos começaram logo após a cirurgia e foram intensificados após um mês quando o jogador aposentou as muletas.
A estratégia de reabilitação consistia em treino duas vezes por dia, de manhã e no fim da tarde, aliando o trabalho mais técnico com lazer para melhorar o condicionamento, O foco de Gaspar era a “reeducação articular e muscular" do jogador e para atingir esse objetivo ele mantinha um monitoramento constante sobre o jogador. A fisioterapia era realizada sete dias por semana, sem folga e com apoio da equipe médica e cirurgica que também estava envolvida no caso.
4. Rafael Martini e Neymar Jr.
Rafael Martini começou a trabalhar com o Neymar cerca de doze anos atrás, na primeira passagem do jogador pelo Santos. Foram quatro anos seguidos assistindo o Neymar e, logo depois da Copa do Mundo do Brasil, o jogador chamou Martini para integrar sua equipe pessoal no Barcelona.
A partir desse momento, os exercícios para preparação física e prevenção de lesões passaram a ser feitos todos os dias na casa do jogador. Uma rotina específica foi montada pelo fisioterapeuta com resultados positivos: uma melhora física considerável, com aumento de massa muscular e da resistência a impactos, sem comprometimento de velocidade.
Durante a Copa de 2022, durante a recuperação relâmpago de uma lesão no tornozelo, o fisioterapeuta fez parte de um regime intensivo com 24h seguidas de tratamento, sendo que Neymar chegou a dormir na sala de fisioterapia para otimizar o tempo. Não só nessa ocasião, mas sempre que necessário, as práticas mais comuns utilizadas foram: crioterapia, eletroterapia e terapia por ondas de choque, empregadas para acelerar o processo de cicatrização e reduzir o tempo de afastamento dos campos.
Eles trabalham juntos até hoje e o atleta ainda conta com eles para prevenção e recuperação. É o caso do mais recente diagnosticado de Neymar: um edema na coxa esquerda que foi descoberto em uma ressonância magnética no dia 06 de março de 2025. A lesão não é grave, não houve rompimento do tecido e o tratamento é basicamente fisioterapia, contudo o jogador ainda vai ficar algumas semanas afastado do campo.
O Santos deu um período de folga para o jogador, que aproveitou esses dias para juntar sua equipe e dar seguimento ao tratamento em Mangaratiba. O processo de recuperação está sendo conduzido por Matini e Rosa - preparador físico que também acompanha o atleta há 12 anos. Eles estão garantindo que Neymar siga o protocolo para voltar a jogar o mais rápido possível e nas condições ideais.
Conclusão
O fisioterapeuta especialista em lesões esportivas desempenha um papel fundamental no futebol e na carreira dos atletas. Na verdade, ao prevenir lesões e promover uma recuperação rápida, ele é um valioso recurso econômico para times e patrocinadores, afinal jogadores com baixo rendimento ou parados devido a uma lesão, representam prejuízo monetário a todos os investimentos feito. Menos tempo de reabilitação significa menos perdas e certeza de contratos continuados, além da possibilidade de continuar jogando nas grandes ligas.
Casos como os de Ronaldo Fenômeno, Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar Jr. mostram porque o trabalho do fisioterapeuta esportivo é valorizado: salvaram a carreira de quatro astros do futebol mundial e, juntos, um investimento de aproximadamente 560 milhões de reais (em valores corrigidos e convertidos). Sem esse trabalho, talvez o Brasil não fosse pentacampeão, Neymar e Messi talvez já tivessem se aposentado e Cristiano Ronaldo não teria voltado a tempo de trocar de time em 2009.
A história do futebol está cheia de heróis que ficam no banco e nas sombras, longe dos olhares do público, mas que tem o poder de fazer toda a diferença no destino dos jogadores, dos times e da torcida. E você pode ser um deles: previna e trate lesões esportivas em jogadores de futebol profissional e de alto nível para otimizar carreiras, promover a recuperação e evitar recidivas, sem comprometer o desempenho. Com a Pós EAD São Camilo em Fisioterapia Esportiva, você está apto a ser essencial aos melhores futebolistas do mundo e dar uma cara nova ao sonho antigo de viver para o futebol.