De analgésicos, soros e vacinas a antibióticos e quimioterápicos, os acessos vasculares são essenciais para diversos tratamentos médicos. Principalmente em ambiente hospitalar e clínico, o uso de terapias infusionais oferece muitos benefícios em relação a - por exemplo - medicamentos orais.
Quando administrado na veia, um medicamento gera uma resposta muito mais rápida no organismo, afinal é absorvido imediatamente e não passa pelo sistema gastrointestinal, o que é essencial em situações críticas. Não só isso, mas esse método faz com que doses menores de compostos farmacêuticos tenham a mesma - ou até mais - potência do que as encontradas em cápsulas ou comprimidos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 70% de todos os pacientes hospitalizados no mundo recebem algum tipo de acesso venoso durante o período de internação. Esses números podem chegar a 100% em UTIs e emergências. Além disso, dos pacientes de pronto socorro que precisam de farmacoterapia ou hidratação, muitos são tratados através de acessos.
Consequentemente, o investimento mundial em tecnologias para acessos e terapias infusionais é alto. A Mordor Intelligence relatou que o mercado global de terapia intravenosa (IV) e acesso venoso está projetado para crescer a uma taxa composta anual (CAGR) de 5% nos próximos cinco anos. Para profissionais da área, esse investimento já começa a dar resultados. Feiras de tecnologia médica e congressos estão prometendo recursos inovadores que vão mudar a rotina da área:
4 tecnologias emergentes que vão mudar a prática clínica em acesso vascular e terapia infusional:
Aplicativos Móveis para Monitoramento e Prevenção de Infecções
Para quem já assistiu “Anatomia de Grey” (“Greys Anatomy”) ou “O bom doutor” (“The Good Doctor”), não é novidade alguma que celulares e tablets já fazem parte da rotina clínica de médicos e enfermeiros. O prontuário médico agora é registrado em aplicativos, a organização da emergência é feita por computadores, a agenda de ambientes cirúrgicos é online, assim como o controle da farmácia. Agora, as tecnologias móveis alcançaram os acessos vasculares.
Essa mudança aparece na forma de aplicativos especializados que auxiliam enfermeiros no cateterismo intravenoso. Esse recurso apoia profissionais da saúde na escolha do melhor dispositivo ou do melhor vaso sanguíneo, na manutenção dos acessos vasculares e até na prevenção de infecções de corrente sanguínea associadas a cateteres (ICSRC). Além de contarem como uma ferramenta de neuroeducação.
Uma pesquisa recente identificou 19 aplicativos desenvolvidos exclusivamente para otimizar essas práticas, proporcionando maior precisão na inserção e monitoramento dos acessos vasculares. Com funcionalidades como análise de veias via imagem, algoritmos de decisão para escolha de cateteres e lembretes para troca de dispositivos, essas ferramentas tornam a terapia infusional mais segura e eficiente.
Ferramentas tecnológicas que preveem e previnem complicações
Uma das maiores preocupações quando se fala em acessos venosos são as possíveis complicações associadas. Um estudo divulgado na Scielo revelou que 53% dos pacientes com acessos venosos periféricos (CVPs) sofrem complicações, 18,34% têm inflamação da veia, 11,83% passam por infiltração e assim por diante. São números que preocupam a área da saúde, afinal punções do tipo representam 85% das intervenções da equipe de enfermagem.
Nesse contexto, surgem as tecnologias que ajudam a identificar esses problemas antes que aconteçam ou que coloquem o paciente em risco/desconforto:
Bombas de Infusão Inteligentes: Esse novo recurso conta com sensores que controlam a administração do líquido infundido. Eles administram da pressão interna (para detectar oclusões) até a presença de bolhas de ar (para evitar embolias), além de terem recursos como biblioteca de medicamentos (para controlar doses e velocidade de infusão) e integração com prontuários eletrônicos (para alertar qualquer irregularidade).
Um estudo da Revista Brasileira de Enfermagem apontou que essa nova tecnologia pode prevenir até 86% dos erros na administração de medicamentos.
Sistemas Baseados em Visão Computacional: A base dessa tecnologia é produzir registros visuais constantes (fotos ou vídeos) de uma bomba infusional e, através de algoritmos de deep learning*, monitorar a formação da gota. Dessa forma, é possível determinar o fluxo de infusão, reduzir a necessidade de intervenção da equipe de enfermagem e reduzir riscos.
Em estudos, são destacados a precisão e a capacidade do sistema de produzir estimativas em tempo real. A estimativa é que a tecnologia reduza os erros em 60%.
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Robótica no Acesso Vascular
Seguindo a lógica das tecnologias anteriores, a integração de ferramentas robóticas tem a função de reduzir a taxa de complicações associadas a punções venosas. Além disso, automatizar a prática tem o objetivo de aumentar a precisão e aumentar a eficiência das equipes de enfermagem.
Na prática, o recurso permite o uso de imagens em infravermelho (NIR) para encontrar as melhores veias e ângulos de inserção e sistemas teleoperados para procedimentos complexos como canulação para Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO).
Um exemplo é o "VeniBot", um sistema que usa tecnologias avançadas de imagem de ultrassom e NIR e aprendizado de máquina para precisar o local e o ângulo da punção a ser realizada. Ele é composto por dois motores e dois dispositivos de imagem, além de contar com softwares de deep learning que fornece informações aprofundadas em segmentação de veia.s
Em testes, o recurso alcançou um coeficiente Dice médio de 0,7634 na identificação da área de punção, um erro angular de 15,58° e diminuiu a taxa de falhas em 5,60%, indicando potencial para ampla aplicação clínica no futuro.
Educação Digital e Telessimulação para Enfermeiros
A prática leva a perfeição, e é nesse sentido que a capacitação é parte essencial da prática de enfermagem em acesso vascular e terapia infusional. Integrar tecnologia avançada e treinamento é uma forma de proporcionar experiências mais imersivas e eficazes.
A educação digital não é novidade. Usar plataformas online, com módulos interativos e multimídia para ensino teórico e prático já era possível antes da COVID-19 (quando se popularizou). Contudo, a prática tem se tornado cada vez mais comum e os resultados indicam aumentos significativos no conhecimento e na proficiência prática dos participantes.
Já a Telessimulação integra tecnologias de comunicação em tempo real e simulações à distância para permitir que profissionais se conectem a especialistas sem preocupações com barreiras geográficas. Um exemplo prático foi descrito no artigo “Desenvolvimento de um design de telessimulação para o suporte básico de vida”.
Ao longo do processo, os alunos passam por vários cenários (ex: paciente hospitalar em parada cardiorrespiratória). Um instrutor especializado orienta a prática enquanto os alunos desenvolvem o procedimento em manequins de treinamento com sensores que monitoram as respostas do paciente simulado.
O modelo teve 0,96 (96%) de pontuação no Índice de Validade de Conteúdo (IVC), o que o qualifica como estruturado e confiável. Sua aplicação já pode ser vista na prática em hospitais como o Albert Einstein.
Conclusão
A prática de punção para acessos venosos está mudando e isso é só o começo. Para profissionais da área, isso desperta a necessidade de se manter atualizado, seja em ferramentas de ensino, técnicas de aplicação de robótica, uso de aplicativos ou leitura de indicadores gerados por IA.
Nesse sentido, a especialização surge como um recurso de múltiplas utilidades: atualização, teoria e prática. Um profissional da enfermagem pós-graduado não apenas conhece as mudanças que estão ocorrendo, mas também estão aptos a aplicá-las na rotina clínica. Um diferencial que é reconhecido e valorizado no mercado de trabalho.