Em 2012, a Organização das Nações Unidas reconheceu o dia 21 de março como a data oficial de conscientização global sobre a Síndrome de Down (SD). A data comemora a diferença e é símbolo da luta por igualdade.Contudo, ainda há um longo caminho a se percorrer, principalmente quando se trata de educação. 

Em 2015, a população mundial de pessoas com SD estava na casa dos 5 milhões. Esse número vem crescendo desde então, seguindo a proporção de 1 criança registrada com a síndrome a cada 1.000 nascidas. Seguindo a estatística de que 140 milhões de bebês nascem por ano, isso teria totalizado mais de um milhão de novos casos. 

Só no Brasil, são 300 mil pessoas carregando a condição genética causada pela trissomia do cromossomo 21 e cerca de 800 nascem todos os anos. Em um ranking das principais causas conhecidas de deficiência intelectual no Brasil, o aparecimento de uma 47ª sequência do DNA onde deveria haver 46, ocupa um dos primeiros lugares, sendo responsável por 25% dos casos

Para pessoas que nasceram com Trissomia do 21, as maiores dificuldades estão em expressar linguagem e manter o foco. Além disso, eles apresentam atrasos no desenvolvimento de habilidades físicas e cognitivas - como andar e aprender. Historicamente, o quadro causa desinformação e capacitismo, chegando ao ponto de muitos pais reclamarem sobre o fato de que os filhos dividem a sala com alunos deficientes que atrasam o aprendizado da turma

Essa visão preconceituosa é errada, contudo ela abre discussão para uma preocupação válida: a preparação do sistema educacional brasileiro para incluir alunos com deficiência. Seja a SD ou outras condições, as escolas nacionais têm um problema grave e óbvio quando o assunto é educação inclusiva, o que causa exclusão e prejudica o desenvolvimento intelectual, motor e cognitivo desses estudantes.

 

Contexto histórico e científico da Síndrome de Down: a importância da educação no processo de desenvolvimento

Em 1990, Reuven Feuerstein propôs a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural. O professor e psicólogo defendeu que todos têm potencial de aprendizagem, mesmo aqueles com deficiências cognitivas. 

A longo prazo, esse avanço foi um dos responsáveis pelo surgimento de legislações como a  Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/1996). Juntas, elas determinam o direito de PCD’s a uma educação especializada, em igualdade de oportunidades, sem discriminação e com acesso ao suporte necessário a plena participação. Contudo, a realidade das escolas brasileiras não é essa. 

Na verdade, a falta de esforço institucional para que esses alunos, de fato, participem das atividades é apenas uma nova forma de excluir. Na prática, isso causa histórias como a de Kassya de Souza que, em 2021, foi chamada à escola de seu filho com SD, Miguel, porque a professora “não tinha condições de prestar atenção nele a todo instante” e ainda sugeriu que seria melhor ele estudar em casa. 

Essa consequente exclusão interfere no desenvolvimento de alunos com SD, que é beneficiado pelos estímulos neuropsicomotores certos. Um estudo desenvolvido pela psicopedagoga Thaís Patrício de Araújo comparou dois grupos de crianças com Síndrome de Down: um que recebeu estímulos e intervenção (A)  e o outro que não recebeu (B). Como resultado, ela constatou que 66% do grupo A foram alfabetizados em ritmo semelhante ao de crianças com desenvolvimento típico, enquanto nenhum indivíduo do grupo B obteve a formação. 

Contudo, para que a realidade do estudo seja factível a todos os casos, é necessário ambiente acadêmico adaptado: o currículo e as atividades devem respeitar o ritmo e o estilo de aprendizagem de cada aluno, os métodos pedagógicos utilizados tem que prender a atenção e ser acessíveis. E para que tudo isso seja possível, a presença de um professor especializado em educação especial / educação inclusiva é fundamental. 

                 Educação acessível para todos. Nesta imagem, uma jovem com síndrome de Down estuda de forma independente, destacando como a inclusão e a tecnologia facilitam o acesso ao aprendizado e promovem a autonomia no ensino.

A importância do professor especializado em educação especial / educação inclusiva no desenvolvimento de crianças com trissomia 21.

Educar alunos com SD requer que o professor reconheça as necessidades individuais, as características e as potencialidades, e, mais do que isso, a habilidade de usar esse conhecimento para oferecer respostas adequadas a essas singularidades. Um pedagogo que tenha essas práticas consegue construir uma ligação com o aluno e, consequentemente, terá mais facilidade em formar conceitos. 

Pensando além, esse processo requer tanto atenção quanto técnicas pedagógicas. O profissional da educação precisa primeiro entender o aluno e depois desenvolver as  ferramentas para ensiná-lo, sempre pensando em suas principais dificuldades: foco, memória, generalização, linguagem e percepção. Todo o processo tem uma forte influência psíquica, sendo que técnicas de neuroeducação são fundamentais ao sucesso pedagógico. 

A base científica reforça que só transmitir a mensagem não tem eficácia em alunos com Síndrome de Down. Nesses casos, os professores precisam construir uma relação com o aluno e mediar a informação com base nela, levando em consideração os métodos mais eficazes para aquele indivíduo. Essa estratégia não só ajuda o aluno a entender o conteúdo, mas também facilita a assimilação. Dessa forma, não é apenas conhecimento solto, mas também um recurso para desenvolver a habilidade de resolução de problemas.

A falta de preparo dos profissionais pedagógicos para realizar esses processos interfere na aprendizagem. Na primeira série, o ensino da linguagem escrita é afetado, enquanto na segunda os conceitos de ciências se perdem para os alunos. Estudos apontam que adaptações simples, como maior uso de apoios visuais, já faria uma grande diferença. 

Apesar dessas necessidades cientificamente comprovadas e das leis que respaldam o acesso de estudantes com deficiência a uma educação inclusiva, apenas 6% dos professores brasileiros têm educação formal em inclusão. O que significa que uma substancial minoria de crianças com Síndrome de Down é realmente assistida por profissionais que conheçam seus transtornos funcionais, psicologia do desenvolvimento e aspectos sociais e de saúde relacionados. 

Essa diferença existe porque as disciplinas de educação inclusiva em cursos de graduação são mais superficiais. Eles são mais focados em legislação, práticas, recursos e materiais do que nas teorias por trás de tudo isso e, partindo do ponto de que cada estudante é diferente do outro, é preciso ter esse conhecimento para realmente entender cada caso e adaptar a pedagogia para obter os melhores resultados.

Já os cursos de pós-graduação abordam todos os aspectos sociais, pedagógicos, físicos, intelectuais, teóricos e práticos que envolvem o ensino de pessoas com SD. As matérias aprofundadas nessa especialização vão de políticas governamentais e didática, até aspectos dos transtornos específicos e da deficiência física (seja ela auditiva, visual ou múltipla). Conteúdo que habilita professores a alcançar o máximo potencial, desenvolvimento, socialização e independência de pessoas com Síndrome de Down. 

Conclusão

A Lei das Diretrizes da Educação estipula que crianças com Síndrome de Down (ou qualquer outra deficiência) tenham acesso à educação e, especificamente, a uma educação inclusiva. Porém, para que isso de fato se concretize não basta abrir as escolas, é preciso criar um ambiente que promova a educação e a inclusão dessas crianças. Com os estímulos certos, uma criança com SD pode alcançar resultados excelentes - comparáveis aos de um estudante regular. 

Para alcançar esse cenário, professores especialistas em mediar a relação entre esses alunos e as informações transmitidas em sala de aula são fundamentais. Contudo, esses profissionais também são raros no mercado, criando uma alta demanda não apenas entre os alunos que precisam dessa atenção, mas também no mercado de trabalho e para a educação nacional, que está longe de apresentar um cenário realmente inclusivo. 

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